“[A] transformação
do adolescente em fatia privilegiada do mercado consumidor inaugurada nos
Estados Unidos, e rapidamente difundida no mundo capitalista, trouxe alguns
benefícios e novas contradições. Por um lado, a associação entre juventude e
consumo favoreceu o florescimento de uma cultura adolescente altamente
hedonista. O adolescente das últimas décadas do século XX deixou de ser a
criança grande, desajeitada e inibida, de pele ruim e hábitos anti-sociais,
para se transformar no modelo de beleza, liberdade e sensualidade para todas as
outras faixas etárias. O adolescente pós-moderno desfruta de todas as
liberdades da vida adulta, mas é poupado de quase todas as responsabilidades.
Parece que, ao
escrever isso, estou limitando o foco dessa análise aos adolescentes da elite,
os únicos que, de fato, podem consumir e desfrutar da condição de jovens
adultos cujos desejos e caprichos são sustentados pelos pais. Não é bem assim.
Na sociedade pautada pela indústria cultural, as identificações se constituem
através das imagens industrializadas. Poucos são aqueles capazes de consumir
todos os produtos que são oferecidos ao adolescente contemporâneo — mas a
imagem do adolescente consumidor, difundida pela publicidade e pela televisão,
oferece-se à identificação de todas as classes sociais. Assim, a cultura da
sensualidade adolescente, da busca de prazeres e novas “sensações”, do desfrute
do corpo, da liberdade, inclui todos os adolescentes. Do “filhinho de papai” ao
morador de rua, do jovem subempregado que vive na favela ao estudante
universitário do Morumbi (ou do Leblon), do traficante à “patricinha”, todos os
adolescentes se identificam com o ideal publicitário do adolescente hedonista,
belo, livre, sensual. O que favorece, evidentemente, um aumento exponencial da
violência entre os que se sentem incluídos pela via da imagem, mas excluídos
das possibilidades de consumo.”
(Maria Rita Kehl, fragmento de A
juventude como sintoma de cultura).
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